Reconsiderando o Aniquilacionismo
Evangélico:
Uma Análise do Pensamento de John Stott
sobre a Não-Existência do Inferno
James I. Packer
Muito embora só
tenhamos nesse site publicações de nossos professores, devido
à importância e relevância desse artigo, o mesmo está
sendo publicado, com permissão do jornal Os Puritanos, que
detém seus direitos.
O evangelicalismo é definido de várias maneiras por diversos
tipos de pessoas. Eu o defino como a religião dos crentes da
Bíblia Trinitariana que se gloriam na cruz de Cristo como a única
fonte de paz com Deus e buscam compartilhar a sua fé com os outros; e eu
noto que o evangelicalismo ocidental (para não irmos mais adiante), como
o liberalismo protestante, o catolicismo romano de toda espécie, e o
ortodoxismo oriental, tem um padrão propriamente seu. Dentre os fatores
que formaram esse padrão durante os últimos cinqüenta anos
incluem-se o ensinamento dogmático, devocional, apologético e
ativista ministrado nas igrejas evangélicas e em movimentos
paraeclesiásticos; a literatura (livros, jornais, revistas) produzida
pelos evangélicos; a sensação de uma fidelidade superior
à Bíblia, seu Deus e seu Cristo, que as instituições
evangélicas cultivam; uma sensação de estar sendo
ameaçado pelos enormes batalhões do protestantismo liberal,
catolicismo romano e instituições seculares, que os leva a
vociferar quando esses fundamentos ideológicos são discutidos; a
obstinação por um evangelismo atuante; e o costume de transformar
estudiosos e líderes em gurus, de onde surge um sentimento de ultraje e
traição se percebem que eles estão andando fora da linha.
Dentro da distintiva identidade corporativa do evangelicalismo introduziram-se
uma consciência de privilégio e vocação, uma
mentalidade envolvente e persistente, a discussão de temas irrelevantes,
uma certa violência verbal e uma tendência de atingir nossos
próprios feridos.
Ainda não está claro se o recente restabelecimento da
confiança e o crescimento de uma vida intelectual1 do
movimento estão ou não amadurecendo esse padrão ainda
verde; entretanto, sem dúvida alguma, os fatores citados acima se
tornaram evidentes enquanto os evangélicos discutiam o aniquilacionismo
entre si nos últimos dez anos.
Idéias aniquilacionistas têm sido debatidas entre os
evangélicos por mais de um século2, mas nunca se
tornaram parte da corrente principal da fé evangélica3,
nem sequer foram largamente discutidas no meio evangélico até
recentemente. Em 1987, Clark Pinnock escreveu um artigo bombástico de
duas páginas entitulado “O Fogo, e Nada Mais”4,
mas que, apesar de amplamente lido, não provocou maiores
discussões do que uma exposição de quinhentas
páginas sobre o assunto: “O Fogo que Consome” (1982),
publicada por Edward William Fudge5,, talentoso leigo das Igrejas de
Cristo. Entretanto, em 1988, surgiram dois curtos trabalhos de defesa, ambos de
veteranos evangélicos anglicanos: oito páginas de John Stott em
"Essentials"6, e dez do falecido Philip Edgecumb Hughes em "A
Verdadeira Imagem"7, que puseram o gato no meio dos pombos.
Em uma conferência de 350 líderes em Deerfiield, Illinois, no
ano de 1989, eu li um documento pomposamente entitulado
“Evangélicos e o Caminho da Salvação: Novos Desafios
ao Evangelho: Universalismo e a Justificação pela
Fé”8. No documento eu ofereci uma linha de pensamento
contrária à posição desses dois respeitáveis
amigos9. A reação foi tal que a conferência se
dividiu ao meio sobre a questão da aniquilação. O
relatório da Christianity Today (periódico evangélico)
dizia:
"Surgiram fortes desentendimentos sobre a posição do
aniquilacionismo, doutrina que afirma que as almas não salvas
deixarão de existir após a morte... a conferência foi quase
que dividida ao meio ao tratar do assunto em suas declarações, e
nenhuma renúncia a essa posição foi incluída na
resenha final da conferência."10
Depois disso, a pedido de John White, então presidente da
Associação Nacional de Evangélicos, o falecido John
Gerstner escreveu uma resposta a Stott, Hughes e Fudge sob o título
"Arrependei-vos ou Perecereis" (1990)11; e em 1992 os documentos
apresentados na quarta Conferência sobre Dogmas Cristãos de
Edinburgo foram publicados com o título "Universalismo e a Doutrina do
Inferno”12, juntamente com “O Argumento a Favor da
Imortalidade Condicional”, de John W. Wenham e “O Argumento Contra o
Condicionalismo: Uma Resposta a Edward William Fudge”, de Kendall S.
Harmon.
E isso não foi tudo. Livros reafirmando a realidade e eternidade do
inferno começaram a aparecer: "Questões Cruciais Sobre o inferno"
(1991)13, de Ajith Fernando; "Um Deus Irado?" (1991)14, de
Eryl Davies; "O Outro Lado das Boas Novas" (1992)15, por Larry Dixon;
"Quatro Opiniões sobre o Inferno" (1992)16, por William
Crocket, John Walvoord, Zachary Hayes e Clark Pinnock; "A Estrada Para o
Inferno" (1992)17, de David Pawson; "O Que Aconteceu Com o Inferno?"
(1993)18, de John Blanchard; "A Batalha Pelo Inferno: Uma
Visão Geral e Avaliação do Crescimento do Interesse
Evangélico pela Doutrina da Aniquilação"
(1995)19, por David George Moore; "O Inferno Em Julgamento: O
Argumento a Favor do Castigo Eterno" (1995)20, de Robert A. Peterson.
Todos estes contestando mais ou menos elaboradamente o aniquilacionismo.
Continuava assim a discussão.
O que está em questão aqui? A questão é
essencialmente exegética, embora com implicações pastorais
e teológicas. E se resume a se, quando Jesus disse que aqueles banidos no
julgamento final “irão para o castigo eterno” (Mt 25:46), Ele
tinha em vista um estado de tormento que não terá fim, ou um
irrevogável fim da existência consciente; em outras palavras (pois
assim é colocada a questão), um castigo que é eterno em sua
extensão ou no seu efeito. A corrente principal da cristandade sempre
afirmou o primeiro, e continua a fazê-lo; evangélicos
aniquilacionistas, juntos com muitos Testemunhas de Jeová, Adventistas do
Sétimo Dia e liberais __ na realidade quase todos os que
não são universalistas __ defendem o último.
Entretanto desse ponto em diante os evangélicos aniquilacionistas se
dispersam e não há unanimidade21.
Alguns têm asseverado que o aniquilamento ocorrerá
imediatamente após a sentença de Jesus no Juízo Final,
após um período de tormento no estado intermediário; outros
têm pensado que cada pessoa banida da presença de Jesus
passará por algum tormento, proporcional em intensidade e extensão
ao que cada um merece, até que venha o momento da
aniquilação. Alguns baseiam o seu aniquilacionismo em uma
antropologia adaptada. Eles argumentam que uma existência eterna
não é natural; e que, pelo contrário, desde que nós
somos seres pessoais (almas) que vivem por meio de corpos, a
separação entre a alma e o corpo extinguirá a
consciência. Então, depois da nossa separação inicial
(a primeira morte) não há um estado intermediário, apenas
uma inconsciência que continuará até a
ressurreição, e depois dos descrentes ressuscitados serem banidos
da presença de Cristo, as suas consciências finalmente
cessarão (segunda morte) quando, e porque, os seus corpos ressurretos
deixarão de existir. Entretanto, alguns que raciocinam desta forma, na
verdade, afirmam que há um estado intermediário consciente, com
alegria para os santos e sofrimento para os ímpios, como sempre foi o
consenso geral da Igreja. Todos que adotam essa antropologia denominam a sua
posição de imortalidade condicional, expressão
cunhada para mostrar que a existência após a morte que as
religiões imaginam e que a maioria, se não todas, deseja, é
uma dádiva que Deus concede somente aos crentes, enquanto que Ele, cedo
ou tarde, simplesmente extingue o resto de nossa raça. A existência
eterna está, portanto, condicionada à fé em Jesus Cristo, e
a aniquilação é a alternativa para os
demais22.
Historicamente, essas são opiniões do século passado.
O século dezenove foi uma era de audaciosos desafios a
suposições antigas, sonhos audaciosos de fazer as coisas melhores,
e empreendimentos audaciosos, tanto intelectuais como tecnológicos, para
realizá-los. O ensinamento cristão histórico sobre o
inferno era posto em questão à luz da convicção
utilitariana e progressista de que a retribuição em si, sem
qualquer perspectiva de alguma coisa ou alguém ser melhorado por ela,
não é justificativa suficiente para a punição,
desconsiderando o castigo eterno. Partindo desse ponto de vista a idéia
de que o ato de Deus manter alguém em permanente tormento após a
morte era indigno dEle e, portanto, a posição tradicional sobre o
castigo eterno deve ser abandonada, devendo-se encontrar outra maneira de
explicar os textos que parecem ensiná-la. Revisionistas da Bíblia
desenvolveram duas maneiras de fazer isso, ambas essencialmente especulativas,
à maneira de Orígenes, que usava a filosofia da época para
estabelecer uma estrutura da forma de interpretação dos textos e
para preencher as lacunas nos seus ensinamentos. O primeiro método era o
universalismo, que diz que todos os seres humanos estarão por fim no
céu, e especula em como, através de dolorosas experiências,
os que morrem na incredulidade conseguirão isso. A segunda maneira
é o aniquilacionismo, o qual afirma que os que estarão no
céu serão por fim todos os humanos, e especula sobre quando os
incrédulos serão aniquilados. Os argumentos utilizados pelos
aniquilacionistas de hoje são essencialmente os mesmos dos seus
predecessores do século passado.
Duas advertências pastorais e teológicas devem preceder nossas
considerações a esses argumentos.
1) Opiniões sobre o inferno não devem ser discutidas fora das
linhas do Evangelho. Por quê? Porque é somente em conexão
com o Evangelho que Jesus e os autores do Novo Testamento falam do inferno, e a
maneira bíblica de lidar com temas bíblicos é levar-se em
consideração tanto as suas conexões bíblicas, quanto
a sua substância bíblica. Como diz Peter Toon:
“... a pregação e o ensino de Jesus com
relação ao Geena, trevas e condenação estavam
relacionados com a Sua proclamação e exposição do
reino de Deus, salvação e vida eterna; eles nunca são
expostos como assuntos independentes para reflexão e estudo. Renomados
teólogos23 têm muito enfatizado este último
ponto. ... o inferno é parte integrante do Evangelho e portanto
não pode ser deixado de fora ... . Advertir as pessoas para que evitem o
inferno significa que ele é uma realidade, ou pode vir a ser uma
realidade. Portanto, é inevitável que tentemos oferecer uma
descrição do inferno pelo menos em termos de poena damni
(dor pela perda da alegria) e possivelmente de poena sensus (dor dos
sentidos, ou seja, através dos sentidos) mas ... sempre reconhecemos que
falamos figuradamente.”24
A idéia cristã do inferno não é um conceito
isolado de sofrimento apenas por sofrimento (a divina “selvageria”,
“sadismo”, “crueldade” e “vingança”
do qual os aniquilacionistas acusam os crentes que declaram o inferno
eterno)25; mas uma noção biblicamente formada por
três misérias equivalentes, que são: a exclusão da
presença e comunhão graciosa de Deus, em castigo e com
destruição sobre aqueles que, ao negarem as misericórdias
de Deus, já rejeitaram o Pai e o Filho nos seus corações. A
justiça do juízo final de Deus, o qual Jesus administrará,
de acordo com o Evangelho, está em duas coisas: primeiro, o fato de que o
que as pessoas recebem não é apenas o que elas merecem, mas o que
elas na verdade escolheram __ isto é, existir para sempre sem
Deus e conseqüentemente sem nenhum dos bens que Ele concede; segundo, o
fato de que a sentença é proporcional ao conhecimento da Palavra,
obra e vontade de Deus, que foram desconsideradas (Cf. Lc. 12:42-48; Rm1:18-20,
32, 2:4,12-15). De acordo com o Evangelho, o inferno não é uma
selvageria imoral, mas uma retribuição moral, e discussões
sobre a sua extensão para os seus habitantes devem ocorrer dentro desse
quadro.
2) Opiniões sobre o inferno não deveriam ser determinadas por
considerações do bem-estar. Diz John Wenham: “Acautelai-vos
da imensa atração natural por qualquer saída que os livre
da idéia de pecado e sofrimento sem fim. A tentação de
torcer o que deveriam ser declarações completamente rígidas
das Escrituras é intensa. É a situação ideal para
uma racionalização inconsciente"26.
Diz John Stott:
“Eu acho o conceito de tormento consciente eterno emocionalmente
intolerável e não compreendo como as pessoas conseguem conviver
com isso sem cauterizar seus sentimentos ou esfacelá-los com a
tensão. Mas as nossas emoções são um guia
instável, não confiável para nos conduzir à verdade
e não devem ser exaltadas ao lugar de suprema autoridade em
determiná-la ... minha pergunta deve ser __ e é
__ não o que me diz o meu coração, mas, o que
diz a Palavra de Deus?”27
Ambos adotaram o aniquilacionismo, no que estão errados, mas eles o
admitem por uma justa razão __ não porque é uma
idéia que se ajustou confortavelmente às suas
convicções, apesar de tê-lo feito, mas porque eles pensaram
tê-lo encontrado na Bíblia. Qualquer que seja nossa
posição sobre a questão, nós também devemos
ser guiados pelas Escrituras e nada mais.
1) O primeiro argumento é a necessidade de explicar “castigo
eterno” de Mateus 25:46, que está diretamente relacionado com
“vida eterna”, sem que traga necessariamente a
implicação de eternidade. Admitindo-se que, como é
corretamente defendido, “eterno”(aionios) no Novo Testamento
significa “que pertence à era porvir” em vez de expressar
qualquer noção diretamente cronológica, os escritores do
Novo Testamento são unânimes em concluir que o tempo porvir
será eterno. Então o problema dos aniquilacionistas permanece no
mesmo lugar que estava. A afirmação de que, na era por vir, a vida
é alguma coisa contínua, enquanto que o castigo é algo com
um final, torna a questão evasiva. Basil Atkinson, “um
excêntrico bacharel acadêmico”, de acordo com
Wenham28, mas um filologista profissional, e mentor de Wenham e Stott
nessa matéria, escreveu:
"Quando o adjetivo aionios significando “eterno”
é usado no grego juntamente com substantivos de
ação, ele se refere ao resultado da ação,
não ao processo. Assim a expressão “castigo eterno”
é comparável a “redenção eterna” e a
“salvação eterna”, todas expressões
bíblicas ... os que se perdem não passarão eternamente por
um processo de castigo mas serão punidos uma vez por todas com resultados
eternos."29
Embora essa declaração seja constantemente feita por
aniquilacionistas, que de outra maneira não poderiam erigir sua
posição, ela carece de apoio gramatical e em qualquer caso torna a
questão evasiva quando assume que o castigo é um evento
momentâneo ao invés de contínuo. Embora, porventura,
não seja absolutamente impossível, o raciocínio parece
artificial, evasivo, e, em uma avaliação final,
desamparado.
2) O segundo argumento é que, uma vez que a idéia de
imortalidade intrínseca da alma (isto é, do indivíduo
consciente) deixa de ser considerada como uma intromissão platônica
na exegese do segundo século, parecerá que o único
significado natural de morte, destruição, fogo e trevas no Novo
Testamento como indicadores do destino dos ímpios é de que tais
pessoas deixam de existir. Mas tal afirmação quando submetida
à prova mostra estar errada. Para os evangélicos, a analogia das
Escrituras, isto é, o axioma da sua coerência e consistência
intrínsecas e sua capacidade de elucidar ela mesma os seus ensinos,
é uma regra para toda interpretação, e, embora haja textos
que, tomando-os isoladamente, podem conter implicações
aniquilacionistas, há outros que de forma alguma podem se encaixar nesse
esquema. Mas nenhuma teoria que se propõe a explicar o significado da
Bíblia e não abrange todas as Suas principais
declarações pode ser verdadeira.
Judas 6 e Mateus 8:12; 22:13, 25:30 mostram que as trevas significam um
estado de privação e aflição, mas não de
destruição no sentido de deixar de existir. Somente aqueles que
existem podem chorar e ranger seus dentes, como é dito dos que
serão lançados nas trevas.
Em nenhuma parte a morte significa extinção; morte
física é a partida para outra forma de existência chamada
sheol ou hades, e morte metafórica é uma existência sem Deus
e Sua graça; nada na terminologia bíblica garante a idéia,
encontrada em Guillebaud30 e outros, de que “a segunda
morte” de Apocalipse 21:11, 20:14, 21:8 significa ou refere-se à
extinção da existência.
Lucas 16:22-24 nos mostra, como também uma grande quantidade de
linguagem apocalíptica extra-bíblica, que fogo significa uma
existência continuamente em tormento, e as arrepiantes palavras de
Apocalipse 14:10, 19:20, 20:10 e de Mateus 13:42,50 confirmam isso.
Em 2 Tessalonicenses 1:9 Paulo explica, ou amplia, o significado de
“sofrerão penalidade de eterna (aionios)
destruição” adicionando “banidos da face do
Senhor” __ expressão que, por denotar exclusão,
joga por terra a idéia de que “destruição”
significa extinção. Somente aqueles que existem podem ser
excluídos. Tem sido freqüentemente demonstrado que no grego o
significado natural das palavras relacionadas a destruição
(substantivo, olethros; verbo, apollumi) é arruinar, de
forma que o foi destruído fica, a partir de então, inutilizado, ao
invés de propriamente aniquilado, de maneira que passa a não mais
existir de forma alguma.
Os aniquilacionistas se defendem com especial argumentação.
Às vezes, eles argumentam que tais textos que falam de um tormento
contínuo fazem referência somente a uma experiência
temporária para os que se perdem antes de deixarem de existir, mas isso
é tornar a questão evasiva através de uma exegese
especulativa e renunciar a sua declaração original de que o Novo
Testamento, quando fala de perdição eterna, sugere naturalmente a
extinção. Peterson cita John Stott, no que ele chama de “o
melhor argumento aniquilacionista”31. O trecho a seguir faz
comentários às palavras “A fumaça do seu tormento
sobe pelos séculos dos séculos” de Apocalipse
14:11.
O próprio fogo é chamado “eterno” e
“inextinguível”, mas seria muito estranho se o que fosse ali
atirado provasse ser indestrutível. A nossa expectativa deveria ser o
oposto: o que for ali atirado deve ser consumido eternamente, não
atormentado eternamente. Por isso existe a fumaça (evidência de que
o fogo fez o seu trabalho) que “sobe pelos séculos dos
séculos”.
“Pelo contrário”, contra-argumenta Peterson,
“nossa expectativa seria de que a fumaça se extinguiria uma vez que
o fogo já tivesse terminado o seu serviço ... O restante do verso
confirma nossa interpretação: “e não têm
descanso algum, nem de dia nem de noite, os adoradores da besta e da sua
imagem”32. Para isso parece não haver
resposta.
Portanto, o argumento lingüístico fracassa em todos os seus
pontos. Dizer que alguns textos, tomados isoladamente, poderiam significar a
aniquilação, não prova absolutamente nada quando outros
evidentemente não o fazem.
3) O terceiro argumento é o de que o fato de Deus aplicar
eternamente um castigo aos perdidos seria algo injusto e desproporcional. Stott
escreve: “eu questiono se o ‘tormento eterno e consciente’
é compatível com a revelação bíblica de
justiça divina, a menos que talvez (como tem sido argumentado) a
impenitência dos ímpios também perdure ao longo da
eternidade”33. A incerteza expressa pelo “talvez”
de Stott é estranha, por isso não há nenhuma razão
para se pensar que a ressurreição dos ímpios mudará
o seu caráter, e sim toda a razão para se supor que a sua rebeldia
e impenitência continuarão enquanto eles existirem, tornando o
eterno exílio da comunhão de Deus plenamente apropriado; mas,
deixando isso a parte, é evidente que o argumento, se fosse
válido, provaria coisas demais e terminaria solapando a própria
causa aniquilacionista.
Mas se, como sugere o argumento, é desnecessariamente cruel para
Deus manter os que se perdem existindo para serem atormentados, porque a Sua
justiça no caso não requer isso, como os aniquilacionistas podem
justificar, em termos da justiça de Deus, o fato dEle os fazer passar por
qualquer tipo de tormento após a morte. Por que a justiça, que
desse ponto de vista requer a aniquilação de qualquer forma,
não se satisfaz com uma aniquilação no momento da morte? Os
aniquilacionistas bíblicos, que não podem escapar da expectativa
bíblica da ressurreição final de crentes e
incrédulos para o julgamento, também admitem que haverá
alguma dor imposta após o julgamento e antes da extinção;
mas se a justiça de Deus não requer nada além da
aniquilação, e portanto não requer essa dor, ela se torna
uma crueldade desnecessária, sendo Deus assim, conseqüentemente,
acusado de cometer a mesma falta da qual os aniquilacionistas ansiosamente
querem provar que Ele é inocente e também condenam a corrente
principal do pensamento cristão por sua inferência. Enquanto que,
se a justiça de Deus realmente não requer nenhuma
punição em adição à
aniquilação, e a contínua hostilidade, rebeldia e
impenitência dos ímpios para com Deus permanece uma realidade
após suas mortes, não haverá momento algum em que seja
possível tanto para Deus como para o homem dizer que castigo suficiente
já foi aplicado, que já não merecem mais do que já
receberam, e qualquer punição a mais além disso seria
injusta. Dessa forma o argumento retorna aos seus proponentes como um
bumerangue, impelindo-os de volta e deixando-os sem poder escapar das garras do
seu dilema. Basil Atkinson foi mais sábio e declarou: “eu tenho
evitado ... qualquer argumento sobre o estado final dos ímpios baseado no
caráter de Deus, o que eu consideraria uma irreverência tentar
avaliá-lo”34. Sem dúvida ele anteviu as
dificuldades a que tal argumento conduz.
4) O quarto argumento é o de que a alegria dos santos no céu
seria arruinada pelo fato de saberem que alguns continuam debaixo de merecida
punição. Mas não se pode dizer isso de Deus, como se a
manifestação da Sua santidade na punição doesse mais
a Ele do que aos ofensores; e desde que no céu os cristãos
serão semelhantes a Deus, amando o que Ele ama e se regozijando em toda
manifestação Sua, incluindo a manifestação da Sua
justiça (na qual os santos, pelas Escrituras, na verdade já se
alegram neste mundo), não há razão para imaginar que a sua
alegria eterna será prejudicada dessa forma35.
É desagradável contestar honrados colegas evangélicos
através de uma matéria impressa, alguns dos quais são bons
amigos e outros (eu falo particularmente de Atkinson, Wenham e Hughes) agora
já se encontram com Cristo. Portanto, paro por aqui. Meu propósito
era apenas reconsiderar o debate e avaliar a força dos argumentos
utilizados, e isso eu fiz. Eu não estou certo se concordo com Peter Toon
quando diz que “discussão sobre se o inferno significa castigo
eterno ou aniquilação após o juízo ... é
tanto perda de tempo como uma tentativa de saber daquilo que não podemos
saber”36, mas eu estou convencido de que ele está certo
em dizer que o inferno “faz parte do Evangelho” e que
“advertir as pessoas para que evitem o inferno significa que ele é
uma realidade”37. Todo aquele que se decide por advertir as
pessoas para que evitem o inferno pode andar em comunhão no seu
ministério e legitimamente reivindicar ser um evangélico. Quando
John Stott argumenta que “a aniquilação final do
ímpio deveria ser aceita como uma alternativa legítima e
biblicamente fundamentada para o eterno e consciente
tormento”38, ele pede demais, pois os fundamentos
bíblicos dessa posição, quando examinados, provam, como
vimos, que são inadequados. Seria errado porém, se essas
diferenças de opinião quanto ao assunto levassem ao rompimento da
comunhão. Entretanto seria uma boa coisa se elas fossem
resolvidas.
Autor
Dr. James Packer, antigamente Professor de Teologia no Regent College,
Vancouver; desde 1979, Editor Senior da Chrishanity Today e um professor muito
ocupado. Ele disserta amplamente, escreve extensivamente, e é o distinto
autor de numerosos best-sellers. Ele contribuiu para Reformation & Revival
Journal.
Notas:
1 No Place for Truth (Nenhum Lugar para Verdade - Grand Rapids: Eerdmans,
1993) de David Wells e Mark Noll, The Scandal of the Evangelical Mind (O
Escândalo da Mente Evangélica - Grand Rapids: Eerdmans, 1994),
contam só parte da história. Admitindo-se que a teologia
evangélica em algumas partes e sobre alguns aspectos tem sido deformada e
fragmentada, a energia que atualmente vem sendo dedicada para recuperá-la
aqui, é notável.
2 Detalhes podem ser recolhidos de LeRoy Edwin Froom, The Conditionalist
Faith of Our Fathers (A Fé Condicional de Nossos Pais - Washington, D.
C.: Review and Herald, 2 vols., 1965-66), e de David J. Powys, "The Nineteenth
and Twentieth Century Debates about Hell and Universalism," (O Debate sobre
Inferno e Universalismo no Século 19 e 20 - Uníversalism,
Paternoster Press, e Grand Rapids: Baker, 1992), 93138.
3 Eu declarei isto em "The Problem of Eternal Punishment" (O Problema do
Castigo Eterno - Crux XXVI.3 - 23/09/90. John Wenham desafiou fundamentado em
que os evangélicos falaram muito sobre o assunto na segunda metade do
século 19, que ele chamou "o auge do condicionalismo entre
evangélicos" (Universalism. ., 181 e nota 27). Mas
conversação e convicção não são a
mesma coisa. A evidência para minha afirmação encontra-se no
fato de que três dos "quatro melhores livros que defendem o
aniquilacionismo" segundo Robert A. Peterson, " (Hell on Trial - Inferno em
Julgamento - Phillipsburg: Presbyterian & Reformed Publishing, 1995,
161-62); The Righteous Judge, de Harold E. Guillebaud (O Justo Juiz -
publicação independente, 1964); Basil F. C. Atkinson, Life and
lmmortality (Vida e Imortalidade - publicação independente, n.d.c.
1968; e Edward William Fudge, The Fire That Consumes (O Fogo Que Consome),
não foram publicados por nenhuma publicadora evangélica influente.
4 Christianity Today (Cristianismo Hoje), 20 de março de 1987,
40-41. Pinnock ampliou sua linha de pensamento em "The Destruction of the
Finally Impenitent" (A Destruição do Impenitente a Final -
Criswell Theological Review 4 (Primavera 1990), 243-59.
5 Houston: Providential Press, (Imprensa providencial), 1982. O livro de
Fudge foi notado e respondido de forma breve por Robert UM. Morey, Death and
the Afterlife (Morte e a Vida após a morte - Minneapolis: Bethany House,
1984), 124ff., 205. Uma edição revisada e reduzida, com as
respostas de Fudge aos críticos, apareceu em 1994 (Carlisle, Reino
Unido,: Paternoster Press).
6 David L. Edwards e John Stott, Essenhals (Londres: Hodder &
Stoughton, 1988), 313-20.
7 Grand Rapids: Eerdmans, e Leicester, Reino Unido,: Inter-Varsity Press,
1989, 398-407.
8 Kenneth Kantzer e Carl F. H. o Henry, eds., Evangelical Essentials
(Grand Rapids: Zondervan, 1990), 107-36.
9 A linha de pensamento foi desenvolvida no artigo de Crux (Ponto Crucial),
nota 3.
10 Christianity Today (Cristianismo Hoje), 16 de junho de 1989, 60,; 63.
11 Ligonier, Pennsylvania,: Soli Deo Gloria Publications (Soli Deo Gloria
Publicações), 1990.
12 Veja nota 2.
13 Eastbourne, Reino Unido,: Kingsway, 1991.
14 Bridgend, Reino Unido,: Evangelical Press of Wales (Imprensa
Evangélica de Gales), 1991.
15 Wheaton: Bridgepoint Books (Victor Books), 1992.
16 Grand Rapids: Zondervan, 1992.
17 Londres: Hodder & Stoughton, 1992.
18 Darlington, Reino Unido,: Evangelical Press (Imprensa
Evangélica), 1993.
19 Lanham, Maryland,: United Press of América, 1995.
20 Veja nota 3.
21 Para uma consideração geral, veja David J. Powys, ""The
Nineteenth & Twentieth Century Debates about Hell and Universalism," in
Universalism. . ., (Debate sobre Inferno do Século 19 e 20 e
Universalismo), em Universalism. . ., 93-129.
22 Além de seus expoentes evangélicos modernos, o
condicionalismo tem tido o apoio de uma grande parte do protestantismo mundial
durante os últimos 150 anos. Veja B. B. Warfield, " Annihilationism"
(Aniquilacionismo-Grand Rapids: Baker, 1981), ix., 447-57; Peter Toon, Heaven
and Hell (Céu e Inferno - Nashville: o Thomas Nelson, 1986),
17S81;artigos "Annihilationism" (Aniquilacionismo) e Conditional Immortality"
(Imortalidade Condicional - Dicionário Evangélico de Teologia -
Walter UM. Elwell, ed. Grand Rapids: Baker,1984).
23 Ibid., 199.
24 Ibid., 200-201.
25 "Selvageria" é de Michael Green, Evangelism through the Local
Church (Evangelismo pela Igreja Local - Londres: Hodder & Stoughton, 1990);
"sadismo" é de J. W. Wenham, Universalism. . . (Universalismo ...), 187;
as outras duas palavras são de Clark Pinnock, Criswell Theological Review
4 (1990), 246.
26 Wenham, The Enigma of Evil (O Enigma do Mal - Grand Rapids: Zondervan,
1985), 37-38.
27 Stott, Essentials, 315-16.
28 Wenham, Universalism ... (Universalismo...), 162, note 3.
29 Atkinson, Life and lmmortality (Vida e Imortalidade), 101.
30 H. E. Guillebaud, The Righteous Judge (O Justo Juiz), 14.
31 Peterson, Hell on Trial (Inferno em Julgamento), 162. Wenham descreve as
páginas de Stott como um "tratamento leve", (Universalism. . ., 167). O
julgamento de Peterson me parece mais perspicaz.
32 Ibid., 168-69; Stott citando, Essentials, 316.
33 Ibid., 319.
34 Ibid., iv.
35 Estas sentenças são principalmente retiradas de Packer,
art. cit, 23. 36 Ibid., 201.
37 Ibid., 250.
38 Ibid., 320.39